Locais para desenvolver o Samadhi

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Longchen Rabjam

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Locais para desenvolver o Samadhi

de Longchen Rabjam

No cimo das montanhas, montes, serras, bosques, barrancos, florestas pouco frequentadas, em ilhas ou lugares parecidos,
Em locais agradáveis à mente e bem adequados às estações do ano,
Desenvolvam o samadhi calmo, que é focalizado e estável –
Luz clara, livre da mínima elaboração conceptual.

Isto é conseguido naturalmente quando três factores puros se associam:
O local ideal, o praticante e o Dharma que vai ser praticado.

Primeiro que tudo, o local deve ser isolado e agradável,
Um local com condições favoráveis à prática espiritual nas diferentes estações do ano.
No verão, meditem em casas e frescas e localidades amenas,
Em locais perto de glaciares, no pico das montanhas ou afins,
Em casas simples feitas de caniços, canas ou palha.

No Outono, adapte o seu regime alimentar, vestuário, e comportamento,
E permaneça numa região e habitação de temperatura moderada,
Como uma floresta, um abrigo de montanha ou uma casa feita de pedra.

No inverno, retirem-se num local quente a baixa altitude,
Numa floresta, gruta ou cavidade na terra,
Adaptem o regime alimentar, o vestuário, a roupa da cama, etc.

Na primavera, fiquem nas montanhas ou na borda das florestas,
Numa ilha deserta ou em prédios com temperaturas amenas e agradáveis,
É de extrema importância ajustar-se aos padrões rítmicos das estações e sincronizar
com elas o regime alimentar, vestuário e comportamento.

Há uma interdependência importante entre o exterior e o interior
Assim retirem-se em locais isolados que achem educativos e motivantes.
No alto das montanhas a mente aumenta a sua clareza e grandeza
O local perfeito para se revigorar, ganhar vivacidade
Abandonando o torpor mental e praticar a fase de criação.

Os montes brancos de neve pura são locais com poucos obstáculos
Eles ajudam a tornar o samadhi claro e a consciência-iluminada radiosa e lúcida
E são ideais para praticar a meditação vipashyana.

As florestas transmitem tranquilidade mental e ajudam-nos a desenvolver a estabilidade mental,
Assim são locais ideais para cultivar shamatha sem preocupações e com uma sensação de conforto.

Nos montes rochosos podemos sentir intensamente a impermanência e a desilusão,
De forma clara e inspiradora, são locais que nos ajudam a concluir a união entre shamatha e vipashyana.

Nas margens de um rio, a nossa atenção concentra-se fácilmente,
E o desejo de abandonar o samsara e começar do zero surge instantaneamente.

Os cemitérios são locais poderosos para uma realização rápida,
Dizem ser ideais para praticar as fases de expansão e conclusão.

Vilas, mercados, casas vazias, árvores isoladas e afins,
que são frequentados por humanos e demónios não humanos[1]
são locais de distracção para principiantes e podem provocar muitos obstáculos,
mas para praticantes estáveis são uma ajuda, considerada como suprema.

Templos e altares, habitados por gyalpo[2] e espíritos gongpo[3]
Podem perturbar a mente e provocar pensamentos de raiva e aversão
Cavernas na terra e locais semelhantes, assombrados por demónias senmo[4]
Provocam desejo – luxúria provocando um excesso de torpor e agitação.

As árvores isoladas que são habitadas por mamos[5] e dakinis[6]
Assim como as rochas e picos montanhosos, onde habitam os demónios mutsen e theurang[7] podem provocar perturbações mentais e muitos obstáculos.

As terras dos marginais, nagas, nyen e espíritos locais,
As margens de um lago, prados, florestas, na baixa montanha, serras e afins,
Adornados com flores bonitas, plantas e árvores,
Ao princípio são agradáveis mas depois provam ser perturbadores.

Resumindo, todos os locais de habitação que parecem agradáveis ao principio,
Mas nem tanto quando os conhecem bem, são locais de menor realização.
Enquanto aqueles que parecem assustadores e desagradáveis no inicio,
Provam ser agradáveis depois de se terem habituado a eles,
Verificando-se locais poderosos de transmutação, trazendo grandes realizações sem obstáculo.

Todos os outros lugares que ficam entre estes, são neutrais: nem bons nem maus.

Como a nossa mente é afectada pelos lugares em que vivemos,
Isso pode tornar a nossa prática mais forte ou mais fraca,
Por isso é dito que examinar os locais em que praticamos é vital.*

Há 4 tipos de lugares baseados nas 4 actividades:
1. Locais pacíficos, onde a mente naturalmente se concentra e acalma,
2. Locais espaçosos, encantam a mente pois são fantásticos e estimulantes,
3. Locais magnéticos, onde a mente fica fascinada e desenvolve o apego,
4. Locais bárbaros, em que a mente é perturbada por sentimentos de medo e terror.

Podem-se fazer-se mais divisões, mas neste contexto, para o samadhi, os locais pacíficos são os melhores,
E assim, temendo um excesso de palavras, e como já foi aqui amplamente explicado,
Não me alargarei a esse respeito.

Num local pacífico, a casa para meditar deve ser solitária,
Pois isso será bom para o processo de concentração mental,
A casa ideal deve ser aberta de ambos os lados e ter uma vista clara.

No ciclo da noite, pratiquem numa “casa escura” circular,
Num local alto, no meio da sala central,
Com a almofada virada para norte, deitados na postura do nirvana.

O local para praticar o yoga da luz durante o dia,
Deve ter uma temperatura suave e uma entrada
Com uma vista ampla, sem obstruções para os glaciares, quedas de água, florestas ou vales, e para o céu aberto e vasto - a mente torna-se clara e brilhante.

Quando desenvolvemos shamatha, uma barraca solitária rodeada por uma cerca,
É o local ideal para que a imobilidade – a quietude mental nasça naturalmente.
Para o vipashyana é importante ter uma vista motivadora e clara,
Estar constantemente animado e bem sintonizado com as estações.

Nas regiões de baixa altitude e claridade, tais como florestas e ravinas,
São ideais para praticar shamatha, enquanto as regiões altas,
Como as montanhas nevadas são ideais para vipashyana —
É importante saberem estas diferentes distinções.
Com simplicidade vos digo, qualquer região ou local de residência para retiro,
Em que o sentimento de renúncia e desencanto surgem, a atenção está concentrada, e o samadhi cresce e torna-se forte – são locais de actividade virtuosa
E é dito serem iguais ao local onde a essência da iluminação foi alcançada.

Em qualquer local em que a virtude declina, aumentam as complicações mentais,
E esgotamo-nos em distracções e negócios mundanos,
um local assombrado pelas acções negativas, deve ser evitado pelos sábios.

Estes elementos foram ensinados por Padmasambhava, por isso
Deviam ser aprendidos por todos os que aspiram à iluminação.

Esta é a conclusão da 1ª parte do texto “Finding comfort and ease in meditation on the Great Perfection”.

(c) Chodon 2015, ano do cavalo de madeira segundo o texto original inglês publicado no livro “Mind in Comfort and Ease, The Vision of Enlightenment in the Great Perfection” by Dalai Lama,que comenta este texto que recebeu de Kyabjé Trulshik Rinpoche, o local do ensinamento foi Lerab Ling, no sul de França em Setembro de 2000.

Editado em 2006 pelo Terton Sogyal Trust, e em 20007 por Wisdom Publications.

Notas
Esta é a principal razão da peregrinação a locais onde viveram santos, estes transformam esse lugar em sagrado e a prática dos peregrinos é mais poderosa. (Dalai Lama. p.156)


  1. Nestes versos, são nomeados um certo número de seres não humanos e espíritos. É importante saber quem são pois existem divindades que protegem contra cada demónio específico  ↩

  2. Gyalpo – literalmente “rei” ou seja o ego rei dos donos do mundo (samsara) são espíritos maus ou forças negativas que causam obstáculos.  ↩

  3. Gongpo um tipo de demónio que causa doenças.  ↩

  4. Senmo é um espírito feminino que afasta os homens do caminho espiritual provocando-lhes a luxúria e sentimentos de depressão.  ↩

  5. mamos são demónios femininos terríveis.  ↩

  6. dakinis são divindades femininas que ajudam os seres no caminho espiritual.  ↩

  7. Referem-se a espíritos.  ↩

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