Sobre o Sono

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Dodrupchen Jigme Tenpe Nyima

The Third Dodrupchen

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Sobre o Sono

por Dodrupchen Jigme Tenpe Nyima

Dormir mesmo que uma única vez pode render cem sonhos cheios de erros cometidos.
Ó Mañjuśrī, em sua perfeita sabedoria você despertou completamente
Do mais pesado dos sonos, velha conhecida ignorância,
E agora seus olhos estão para sempre abertos - que tudo seja auspicioso!

O insuperável Mantra Secreto tem seus próprios métodos incomuns para transformar o sono em virtude, e até no veículo das perfeições transcendentes o sono pode ser adequado ao caminho. Mesmo assim há aqueles que são incapazes de empregar tais métodos e ainda perdem muito tempo dormindo. Como isso é um erro sério, proscrito pelo Buddha, eu darei aqui alguns breves conselhos em duas partes: 1) refletir sobre os defeitos do sono, e 2) tendo refletido, a aplicação na prática.

1. As Desvantagens do Sono

O glorioso Śāntideva diz (Bodhicaryāvatāra VII.14):

Tire proveito deste barco, o corpo humano,
Para se livrar do grande rio do sofrimento.
Como este barco será difícil de se encontrar novamente,
Agora não é o momento para dormir, seu tolo!

A forma humana livre e favorável que atualmente possuímos é difícil de obter. Nós podemos compreender isso pensando sobre suas causas ou refletindo através de metáforas e estatísticas. E quando consideramos que essa situação única na qual nos encontramos não vai durar, mas em breve chegará ao fim, devemos nos voltar ao Dharma com a urgência de alguém cujos cabelos pegaram fogo e desesperadamente tenta apagar as chamas.

Como passamos metade de nossas vidas de dia e metade de noite, se gastarmos não só a noite como também boa parte do dia em repouso inútil, nunca alcançaremos nenhuma diligência real. Mas se somos capazes de praticar a virtude, então, como é detalhado nos sutras, cultivar bodhicitta mesmo que pelo breve período que se leva para ordenhar uma vaca traz enorme quantidade de mérito - tão vasto quanto a quantidade de partículas de terra. O Sutra que Inspira Nobres Intenções (Adhyāśayasañcodana) nos diz:

O sono é a fonte de muitas visões confusas,
O desperdiçador das nobres virtudes do Dharma.
Sabendo que os rouba sua diligência,
Como poderiam os sábios se deleitarem no sono?

Uma vez que tenhamos tomado os votos de bodhisattva, especialmente tendo prometido guiar incontáveis seres à alegria insuperável, passar seu tempo dormindo ou com futilidades pode apenas ser causa de vergonha perante os buddhas e seus herdeiros. O Ornamento dos Sutras diz:

Assumindo o destino de todos os que vivem,
Como poderiam os seres sublimes demorar ou atrasar?

Quando o Abhidharma explica os tipos e funções dos vários estados mentais é dito que o sono atua para interromper a atividade. Isso é evidente: mesmo objetivos de curto-prazo e pequenos projetos são destruídos quando nos apaixonamos pelo sono.

Colocado de maneira simples, Buddha e seus representantes posteriores ensinaram que todas as realizações mundanas e transcendentais vêm através da diligência, e que não há maior inimigo da diligência se não o sono. Se sempre caímos sob o efeito do sono, então isso com certeza trará todos os tipos de falhas mentais, e essas, por sua vez, trarão problemas ainda maiores.

Ademais, alguém que se habituou tanto ao sono a ponto de estar sob seu controle pode até estar fisicamente presente numa reunião dharmica, mas qual o sentido de passar uma sessão inteira atordoado e sonolento? Continuando assim, você não será capaz de absorver nem um único verso! Seria como ir a um grande banquete apenas para se levantar e ir embora sem nem mesmo saborear nada. Mesmo abrindo inúmeros textos e encarando-os ansiosamente não trará convicção enquanto o sono anuviar sua mente - será tão inútil quanto tentar seduzir um eunuco! E quando tentar focar a mente para desenvolver a sabedoria nascida da reflexão e adquirir certeza sobre o significado real, os primeiros sintomas do sono o impedirão de qualquer insight profundo. Mas isso não é tudo; como é uma das cinco falhas no samaadhi, o sono também impede a sabedoria da meditação. Com o tempo, o sono degrada a consciência e atordoa o intelecto, naturalmente enfraquecendo a sabedoria que discerne coisas e eventos. Ele inibe a memória aumentando o esquecimento. Sobre essas muitas falhas, o Sutra que Inspira Nobres Intenções diz:

Quem quer que se delicie no torpor e no sono
Verá sua inteligência enfraquecida.
E com o aviltamento das capacidades mentais,
A mais pura sabedoria permanecerá sempre fora de alcançe.

E:

Quem quer que se delicie no torpor e no sono
Verá sua mente debilitada e sua memória danificada.
Versos ouvidos ou recitados não serão absorvidos,
E ensinar também será uma constante tensão.

Tanto o Sutra que Inspira Nobres Intenções quanto a Introdução ao Caminho do Bodhisattva explicam que aqueles que são excessivamente sobrecarregados com o sono tornam-se presas fáceis para as severas forças não-humanas que podem roubar sua vitalidade. Existem muito casos de guerreiros intrépidos que, tomados pelo sono, caíram facilmente sob as mãos de oponentes muito mais fracos - e isso é algo que podemos testemunhar nós mesmos. O modo como o excesso de sono pode reduzir a longevidade está explicado em textos como O Cajado da Sabedoria. Foi com tudo isso em mente que o Onisciente Drime Ödzer (Longchenpa) escreveu o seguinte em seu Conto do Coelho:

Enquanto deita-se dormindo seus planos viram pó;
E, inatento como és, teus inimigos se reunem,
Enquanto demônios também espreitam uma chance para atacar.
Assim, sem limites são os perigos e armadilhas do cochilo.
E para ter sucesso, portanto, cultive uma diligência insuperável.

Não são apenas as qualidades mentais as afetadas pelo sono; o funcionamento do corpo também é prejudicado. Como o sono reduz o elemento fogo ele dificulta a digestão, e o sono também reduz o apetite. Sonolência também pode causar doênças relacionadas ao fleuma, problemas de pele, cansaço crônico e outras doenças, como flacidez do corpo e descoloração da pele. Para uma descrição mais detalhada desses problemas, consulte O Compêndio do Treinamento e os sutras.

O fato do sono nos ser tão irresistível nessa vida é, como dito nos tratados Prajñapti, um efeito similar à causa. Quando nascemos como cobras e outras criaturas similares no passado, nós nos habituamos ao sono e sua causa, a falta de clareza mental. Agora, se nos condicionarmos ao sono novamente, isso não só trará problemas nessa vida, mas também levará inevitavelmente aos efeitos similares à causa nas vidas futuras. E é por isso que devemos fazer tudo o que pudermos para cortar essa tendência insalubre pela raiz e eliminá-la de uma vez por todas.

2. Aplicando os Antídotos

Você pode combater o sono excessivo refletindo sobre fontes de inspiração, como as vantagens da diligência, ou contemplando sinais luminosos. Uma outra maneira, quando o sono ocorrer, é refletir sobre suas falhas. É dito na Introdução ao Caminho do Bodhisattva (VII.72):

O quão apressadamente eu me levantaria
Se uma cobra caísse em meu colo.
Da mesma maneira, quando o sono e preguiça vierem,
Vou afastá-los com a mesma pressa e urgência.

Devemos estar alertas ao por fim no sono, e devemos aspirar fortemente para que não sucumbamos a ele novamente.

Todos esses pontos podem ser aplicados para afastar o sono antes que ele ocorra e quando ele está apenas começando a aparecer. No meio de uma pesada sonolência, no entanto, você pode afastá-la levantando-se e caminhando, ou ao olhar para as estrelas, ou jogando água fria no rosto. Outros antídotos tambèm são apresentados no Estágios dos Śrāvakas (Śrāvakabhūmi). E a maneira de contemplar a morte que aparece no sétimo capítulo da Introdução ao Caminho do Bodhisattva também é muito poderosa.

Respondendo um pedido do virtuoso asceta Darlo, Jigme Tenpe Nyima escreveu em um instante tudo o que veio à mente. Que haja virtude!

| Traduzido do tibetano para o inglês por Adam Pearcey em 2015. Traduzido do inglês para o português por Gustavo Santhiago em 2019.

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