A ausência de eu individual

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Mipham Rinpoche

Ju Mipham Namgyal Gyatso

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A ausência de eu individual

por Mipham Rinpoche

Aquilo que rotulamos como o agente de nossas ações ou o experimentador de felicidade e sofrimento, e que assumimos ser o eu, o indivíduo, o agente e assim por diante, na verdade nada mais é do que uma presunção de individualidade (uma suposição de haver um eu), feita com base nos cinco agregados. Quando examinamos isso com sabedoria, não encontramos nenhum “eu individual” intrínseco como idêntico ou distinto dos agregados.

Se o eu fosse idêntico aos agregados, concluiria-se que, como existem agregados diferentes, também deve haver múltiplos eus. Se o eu fosse a forma – um dos agregados – concluiria-se que deve haver tantos eus quantas partículas sutis. Da mesma forma para os outros agregados de sensação, percepção, formações e consciência, uma vez que são todos múltiplos por natureza, a lógica dita que o eu também seria múltiplo. Os cinco agregados surgem de causas e não permanecem por mais de um único momento, então o eu também seria impermanente. Em suma, os agregados, compostos, como são, de muitas partículas sutis e aspectos da menor duração possível, não são o eu.

Se houvesse um eu independente distinto dos cinco agregados, deveria ser observável, mas como tal eu não pode ser observado, devemos negar sua existência. Se houvesse um eu que transcende os agregados condicionados, ele não teria as características necessárias para realizar ações ou experimentar felicidade e sofrimento, e assim por diante; em vez disso, seria incondicionado, como o espaço, além de qualquer benefício ou dano.

Os seguidores da escola Vātsīputrīya afirmam que existe um eu, mas que não pode ser descrito de forma alguma, seja como idêntico ou distinto dos agregados, seja como permanente ou impermanente, e assim por diante, mas isso também é ilógico. Quando analisamos racionalmente essa posição, podemos ver que não é possível que uma coisa que não se enquadre em nenhuma dessas categorias exista como algo funcional e real, porque qualquer coisa que realmente exista deve se enquadrar em uma categoria ou outra, e é completamente impossível que algo possa existir como uma entidade funcional e ainda assim evitar esses dois e pertencer a alguma terceira categoria.

A forma, portanto, não é o eu. Tampouco a forma e o eu têm uma relação de posse, com um pertencendo ao outro. O eu não reside na forma, e a forma não reside no eu. Aplicando o mesmo princípio às sensações e aos demais agregados, chegamos a um total de vinte – os chamados “vinte picos da montanha da crença na coleção transitória”. Uma vez que todas essas são crenças adquiridas baseadas em um auto-apego fundamental e instintivo, assim que a crença na coleção transitória for despedaçada pela sabedoria semelhante a um vajra, todas elas serão simultaneamente destruídas.

Além disso, com base na crença fundamental na coleção transitória, existem também os sessenta e dois tipos de visões errôneas relacionadas ao passado, presente e futuro, que são mencionados no Sutra da Rede de Brahmā. Depois, há todas as diferentes suposições sobre as características do eu — que ele é permanente, unitário, no controle, pervasivo e assim por diante. Há também a crença de que, assim como podemos inferir a presença de um oleiro vendo os artigos de seu ofício, como os materiais para um vaso, a roda e o bastão, podemos inferir a presença do eu vendo todos as coisas, como roupas de cama, alimentos e roupas, que atendem às suas necessidades. Depois, há a suposta refutação da ausência de eu que diz que sem um eu todos os esforços do caminho espiritual seriam sem sentido, porque não haveria ninguém para lucrar com eles. Todas essas declarações de filósofos não-budistas que propõem a existência de um eu são inteiramente desprovidas de mérito, porque na ausência de um eu, é inadequado falar de suas características ou de suas provas.

Se o eu fosse permanente, não poderia haver ocasiões distintas para realizar uma ação e experimentar [seu resultado], ou ocasiões distintas de felicidade e sofrimento, exaltação e depressão, pureza e impureza, e assim por diante.

Se o eu fosse unitário, não poderia ter uma variedade de características.

Se o eu fosse independente e totalmente no controle, não poderia ser impermanente ou sujeito à menor circunstância indesejada.

Se o eu fosse onipresente, seria ilógico que algo que possui tudo ao mesmo tempo experimentasse mudanças ou distinções efêmeras, como estar separado dos amigos, ser eu e outro, realizar ações virtuosas e não virtuosas, e assim por diante.

Dado que a natureza do eu nunca é observada através de qualquer cognição validadora, não podemos admitir nenhuma evidência como ver coisas que supostamente produzem seu benefício, assim como não podemos falar das roupas do filho de uma mulher estéril.

A pergunta pode surgir: “Roupas de cama e coisas semelhantes não são tomadas por causa do eu?” A isso, devemos responder que embora o eu não exista, elas são tomadas para beneficiar a coleção e a continuação dos agregados.

Se o eu existisse, o caminho para a liberação seria impossível, porque qualquer sistema que professe a crença em um eu não pode incluir um caminho para eliminar o apego ao eu. Se nosso apego ao eu não for eliminado, nosso apego ao “meu” garantirá que nunca nos separaremos de nosso apego aos três reinos e, portanto, será impossível encontrarmos um meio de nos libertar do samsara.

Há liberação, no entanto, para os proponentes da ausência de eu, porque eles se afastaram dessas formas de apego e, sem nenhuma rejeição ou adoção, eles podem alcançar o nirvana que é livre do apego aos três reinos. Garantir o benefício e evitar o dano não é feito porque o eu existe, mas porque postulamos um agente ou um experimentador (e assim por diante) com base na continuidade dos agregados, embora eles próprios sejam desprovidos de tal eu.

O rótulo “carruagem”, por exemplo, é aplicado a uma coleção de partes. A carruagem não é idêntica às suas rodas ou outras partes, mas também não é completamente separada delas. Portanto, as partes e o possuidor dessas partes não pertencem um ao outro. O possuidor das partes não reside nas partes, e as partes, como as rodas e assim por diante, não residem na carruagem que as possui. A coleção de partes e a forma desta coleção não têm a menor existência por si só, separadas das próprias partes. Quando a analisamos dessas sete maneiras, não podemos observar nenhuma carruagem real que esteja de posse de suas partes. Em vez disso, descobrimos que ela é apenas uma designação, aplicada com base em seus próprios componentes. Quando analisamos o eu da mesma maneira, usando essas sete linhas de raciocínio para ver como o eu é designado com base nos agregados, passamos a entender que ele não existe.

Um sutra diz:[1]

Você acha, ó Māra, que existe um “ser”?
Você está sob o feitiço das crenças.
Esses agregados condicionados são vazios,
E não contêm nenhum ser vivo.

Assim como se fala de uma carruagem
Em referência a uma coleção de partes,
É com base nos agregados,
Que falamos convencionalmente de “seres”.

Extraído de Gateway to Learning de Mipham Rinpoche (mkhas 'jug).

| Traduzido por Adam Pearcey, 2008, com referência a uma tradução preliminar de Erik Pema Kunsang. Adaptado ao português por Kadag Lundrub (Marcos Paulo Sousa).


  1. O comentário de Khenpo Nüden fornece a fonte desta citação como o Sutra Lankāvatāra. Para saber mais sobre esses versos importantes da Irmã Vajirā, que também podem ser encontrados no cânone em páli e em várias fontes Mahāyāna, veja Matthew Kapstein, Reason's Traces, Wisdom Publications, 2001, página 78 e passim.  ↩