Uma Breve Introdução aos Bardos

Dying & the Bardos | Advice | Tibetan MastersPatrul Rinpoche

English | Français | Português | བོད་ཡིག

Patrul Rinpoche

Dza Patrul Rinpoche

Further Information:
Download this text:

Uma Breve Introdução aos Bardos

por Patrul Rinpoche

Geralmente, sempre que seres possuindo um corpo físico morrem, estes experienciam primeiramente as vinte fases de dissolução grosseira, que são as seguintes:

  1. À medida que o agregado da forma se dissolve, os membros contraem-se e o corpo perde a sua força e energia.

  2. À medida que a sabedoria do espelho se dissolve, a mente torna-se obscura e nebulosa.

  3. À medida que o elemento terra se dissolve, o corpo torna-se seco.

  4. À medida que a faculdade visual se dissolve, a visão torna-se obscura e o olho assume uma forma mais arredondada.

  5. À medida que o objeto forma se dissolve, o corpo perde a sua vitalidade e enfraquece.

  6. À medida que o agregado das sensações se dissolve, a pessoa moribunda deixa de detectar sensações.

  7. À medida que a sabedoria da igualdade se dissolve, deixa de haver consciência dos três tipos de sensação (agradável, dolorosa ou neutra).

  8. À medida que o elemento água se dissolve, os lábios, suor, urina, sémen e óvulo secam.

  9. À medida que a faculdade auditiva se dissolve, os sons externos e internos deixam de ser ouvidos.

  10. À medida que o objeto som se dissolve, os sons do próprio corpo deixam de ser ouvidos.

  11. À medida que o agregado da percepção se dissolve, deixa de ser possível distinguir entre diferentes criaturas.[1]

  12. À medida que a sabedoria do discernimento se dissolve, o moribundo esquece o nome dos seus próprios pais, irmãos ou filhos.

  13. À medida que o elemento fogo se dissolve, uma digestão adequada dos alimentos deixa de ser possível.

  14. À medida que a faculdade olfactiva se dissolve, a respiração superior[2] diminui.

  15. À medida que o objeto cheiro se dissolve, a pessoa deixa de conseguir detectar os odores do próprio corpo.

  16. À medida que o agregado das formações se dissolve, a pessoa é incapaz de realizar actividades físicas.

  17. À medida que a sabedoria que tudo realiza se dissolve, a pessoa deixa de conseguir lembrar-se de tarefas mundanas banais ou do seu propósito.

  18. À medida que o elemento vento se dissolve, os dez ventos internos saem das suas localizações habituais.

  19. À medida que a faculdade gustativa se dissolve, a língua fica mais grossa e mais curta que o normal, e fica azul na base.

  20. À medida que o objeto sabor se dissolve, a pessoa deixa de detectar os seis tipos de paladar.

Depois das vinte formas grosseiras de dissolução, que ocorrem desta maneira, surge o processo subtil de dissolução interior:

À medida que a terra se dissolve na água, a pessoa é incapaz de mover o corpo e deixa de conseguir manter a sua força;[3] parece que o corpo está a afundar-se no chão. Como sinal interno, há uma extensão cintilante de azul e a impressão de um suave chuvisco e água corrente.

À medida que a água se dissolve no fogo, a boca e as narinas secam, e a língua aloja-se no palato. Como sinal interno, surge a aparência de uma névoa esfumaçada a rodopiar numa planície.

À medida que o fogo se dissolve no vento, o corpo perde calor nas extremidades e a energia digestiva do estômago fica mais fraca. Como sinal interno, cintilantes faíscas vermelhas estalam e tremeluzem como pirilampos.

À medida que o vento se dissolve na consciência, as exalações tornam-se mais longas e, à medida que a respiração externa mais óbvia cessa, a pessoa é incapaz de inalar. Como sinal interno, há a visão de uma lamparina acesa e muitas tochas dispostas em fila.

À medida que a consciência se dissolve no espaço, como sinal interno, a consciência fica muito clara e, como sinal externo, há uma experiência semelhante a um céu sem nuvens.[4]

Então, quando o espaço se dissolve na luminosidade, quatro visões ocorrem gradualmente:

  1. A essência branca obtida do pai desce da coroa e, quando atinge o coração, ocorre o que é chamado de 'aparência'. Como sinal externo, isto é acompanhado por uma experiência de brancura, como quando o luar preenche um céu completamente limpo e totalmente livre de nuvens. Como sinal interno, há uma experiência inequívoca da claridade natural da consciência, desprovida de qualquer estado conceptual grosseiro focado em objetos percepcionados.

  2. À medida que o elemento subtil vermelho da mãe ascende da base do canal central, a sabedoria da 'aparência' desvanece-se sob a forma de 'aumento'. Como sinal externo, uma visão vermelha manifesta-se como um céu limpo permeado pela luz do sol. Como sinal interno, há um estado mental extremamente claro, desprovido de qualquer estado conceptual grosseiro focado no sujeito que percepciona.

  3. À medida que as essências subtis branca e vermelha se encontram no coração, a sabedoria de 'aumento' dissolve-se sob a forma de 'realização'. Por isso, como sinal externo, há uma experiência de negritude, como a densa escuridão que cai quando o céu escurece completamente. Como sinal interno, pensamentos extremamente subtis relativos a objetos observados e sujeito observador tornam-se completamente ausentes, e todos os conceitos distintos baseados no aspecto aparente da mente desaparecem, de modo que, à medida que a mente dualista vulgar cessa, a sabedoria da 'realização' desponta.

  4. Quando as essências subtis de sangue e respiração, os bindus A e HAṂ[5] e assim por diante - que estão dentro do canal branco e sedoso que parece um fio, no coração -, se dissolvem completamente, surge a luminosidade do momento da morte. Como sinal externo, há uma experiência de vacuidade e claridade sem centro ou periferia, como um céu sem nuvens quando está completamente claro. Como sinal interno, permaneces na sabedoria co-emergente e não-conceptual que é totalmente desprovida de elaboração. Se, tendo reconhecido isso, consegues repousar numa experiência contínua do momento presente, as luminosidades mãe e filho encontrar-se-ão e serás libertado no primeiro bardo.

Neste contexto, luminosidade vazia é explicada de acordo com a abordagem geral dos tantras, enquanto o modo como as formas das deidades surgem da luz clara, como os tikles de luz e assim por diante surgem, é explicado nos tantras Dzogchen. No entanto, será improvável que estes se manifestem de uma forma que ofereça uma oportunidade de libertação.[6]

Em seguida, da luminosidade - na qual as três visões se dissolveram - aparências manifestam-se gradualmente mais uma vez, e o corpo do bardo do devir é formado. Na primeira metade deste bardo, por mais longa que seja, tens a forma da tua vida anterior e, na segunda metade, assumes a aparência do teu próximo renascimento. Todas as faculdades sensoriais estão intactas e consegues viajar milagrosamente e sem obstruções para qualquer lugar, excepto o ventre da [futura] mãe. És invisível a todos, excepto aqueles da mesma classe (isto é, outros seres do bardo) e aqueles que obtiveram a visão divina. Já que assumiste algo semelhante a um corpo num sonho, por exemplo, que é gerado num instante e não conhece a luz nem a escuridão completa, isto é conhecido como o 'bardo da semi-escuridão'.

Como é difícil, neste momento, perceber que morreste, então algumas indicações de que estás no bardo foram ensinadas. Por exemplo, não vês o sol ou a lua quando olhas para o céu, e não deixas pegadas nem projetas sombra.

Todo o tipo de experiências, boas e más, surge nesta fase, como resultado de karma positivo e negativo. Em particular, existem os chamados quatro "sons indutores de medo", que são:

  • o som de uma montanha a desmoronar, que advém do prāṇa terra,
  • o som de ondas a bater no oceano, que advém do prāṇa água,
  • o som de fogo devastando uma floresta, que advém do prāṇa fogo, e
  • o som de mil trovões a rebentar em simultâneo, que advém do prāṇa vento.[7]

Os chamados "três abismos aterradores" são os três abismos branco, vermelho e preto, que são as formas espontâneas dos três venenos. Ao vê-los e caindo neles, entras no útero.

Este é também o estágio em que procuras um local de nascimento, anseias por uma casa e um corpo, e por aí fora. Várias visões, indicando entradas para um local de nascimento, podem ocorrer - sob a forma de aparências como rodas de luz, cavernas, cavidades vazias, animais macho e fêmea, seres humanos sob a forma masculina e feminina e assim por diante.

Nestes momentos, os pontos cruciais da prática são os seguintes:

A início, quando tiveres a certeza de que vais morrer, deves cortar todos os laços e apegos a esta vida. Confessa do fundo do coração quaisquer lapsos e quebras de samaya, acções prejudiciais e assim por diante. Não dediques nem um único momento a sentires-te culpado pelas tuas próprias acções negativas, a temeres a morte ou a sentires-te apegado a esta vida. Em vez disso, sente-te feliz e alegre e diz a ti mesmo: “Agora reconhecerei a luz clara na morte. Ou, se isso não for possível, já que certamente usarei o bardo como uma oportunidade para viajar para um reino puro como Akaniṣṭha, Zangdokpalri ou Sukhāvatī, deverei estar feliz.” Mantém, sem nunca vacilares, a forte intenção e o pensamento: "Viajarei para os reinos puros!"

Gentilmente, de forma descontraída, ao repousares na experiência daquela prática que for para ti a mais clara e vívida, deixa os constituintes desta vida partir. Como não conseguirás praticar nenhuma instrução que não te seja familiar, apoia-te apenas nas práticas mais claras para ti no momento. Estes dois pontos - repousar deste modo numa prática e aspirar a viajar para uma terra pura como Zangdokpalri - são insuperáveis. Em particular, é absolutamente crucial que cries repetidamente a intenção de viajar para a terra pura da tua escolha. É extremamente importante perceber que, mesmo agora, dia e noite, nunca deves abandonar este pensamento.

| Traduzido do tibetano por Adam Pearcey, 2010. Com gratidão a Alak Zenkar Rinpoche, que gentilmente clarificou muitos pontos do texto. Traduzido do inglês por André A. Pais, 2020.


  1. Literalmente "não há consciência da existência de bípedes e outras criaturas".  ↩

  2. É o mesmo que o 'vento de suporte' ('degs byed kyi rlung). Alak Zenkar Rinpoche  ↩

  3. zungs mi thub. zungs refere-se a algo como os constituintes vitais do corpo. Como uma indicação da sua degeneração, a pessoa deixa de conseguir sustentar-se e permanecer na posição vertical. Alak Zenkar Rinpoche  ↩

  4. O texto poderá estar incorreto neste ponto e os sinais externos e internos estarem trocados.  ↩

  5. A () e HAṂ (ཧཾ) aqui simbolizam a essência branca recebida do pai (um HAṂ invertido) e a essência vermelha recebida da mãe (A), que se unificam no coração.  ↩

  6. Por outras palavras, para a maioria das pessoas este processo de dissolução subtil desenrola-se tão rapidamente que é quase impossível ser reconhecido.  ↩

  7. No texto Espelho da Atenção Plena (dran pa'i me long) de Tsele Natsok Rangdrol, estes são referidos como os 'quatro inimigos' (dgra bzhi), indicando que, nalgum momento, surgiu alguma confusão relativamente às sílabas homofónas sgra / dgra.  ↩