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ISSN 2753-4812
ISSN 2753-4812

Comentário Anotado

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Comentário Anotado ao Ensinamento Especial do Rei Sábio e Glorioso

por Pema Kunzang Rangdrol

O guru é a essência e personificação dos três raros e supremos, portanto o texto diz, Homenagem ao mestre!

Segue-se uma explicação da visão, meditação e conduta relacionada com os nomes dos mestres-raiz e da linhagem: A visão é Longchen Rabjam: expansividade infinita, vasta. A meditação é Khyentse Özer: raios de sabedoria e amor. A acção é Gyalwé Nyugu, aquela própria dos bodhisattvas. Aquele que pratica deste modo, renunciando às preocupações desta vida, se for capaz de o levar a peito, pode muito bem alcançar a iluminação nesta mesma vida. E mesmo que tal não aconteça, uma vez que retomará o caminho no futuro, que felicidade! Que alegria! A la la!

1. Apresentando directamente a face de rigpa em si mesma

Quanto à visão, Longchen Rabjam, a instrução consiste nas três afirmações que atingem o ponto vital. Como forma de apresentar a visão, primeiro, relaxa e liberta a tua mente, sem forçar. A sabedoria tem sempre estado presente desde o início, portanto repousa num estado nem disperso, nem concentrado, sem pensamentos. Quando fazes isto, como principiante é impossível evitar um apego à experiência, assim, enquanto repousas neste estado uniforme, tranquilamente, de repente, solta um 'phaṭ!' estilhaçando a mente, a fim de revelares uma consciência nua e transparentemente clara. Para cortares a corrente de pensamentos, torna o som 'phaṭ' feroz, enérgico e abrupto. Emaho! Imediatamente irás experienciar uma consciência sem ponto de referência, dharmakāya claramente nítido, sabedoria além da mente vulgar. Nada existe ali: paralisado de espanto, atingido pelo assombro, e ainda assim tudo é transparente e claro. Está além de qualquer extremo relativo a surgimento, cessação e assim por diante. É uma sabedoria inconcebível e inexprimível: Fresca, pura e súbita, tão além de qualquer descrição. Esta é a consciência que reside enquanto solo. Reconhece isto como a consciência pura do dharmakāya, uma vez que é a visão da pureza primordial além da elaboração. Esta é uma sabedoria que reside no interior e que não deve ser procurada noutro lugar, por isso o texto diz: 'O primeiro ponto vital é: apresentando directamente a face de rigpa em si mesma.'

2. Compreender uma coisa, e uma coisa apenas

O que se segue é como colocar isto em prática através da meditação. Então, sejam a mente e pensamentos encontrados num estado de movimento ou não sejam encontrados pensamentos, mas haja apenas quietude, haja um estado de raiva ou apego aos prazeres dos cinco sentidos, felicidade ou tristeza, aconteça o que acontecer, a cada momento, em qualquer situação, nunca te deves afastar do grande repousar espontâneo no estado natural. Reconhece aquele entendimento do dharmakāya que reconheceste anteriormente, e a luz clara do solo, que é o dharmakāya primordial, e a luz clara do caminho induzida pelo guru — a luz clara mãe e filha, já familiarizadas, irão reunir-se. Repousa no aspecto da consciência, além de qualquer descrição, pensamento e expressão. A sensação de quietude, o sentimento de êxtase e a percepção de claridade: quaisquer experiências que possam surgir, despedaça-as, uma e outra vez. Sempre que surgirem pensamentos, solta um feroz 'Phat'! Desferindo um golpe súbito com a sílaba de meios hábeis e sabedoria, exclama repetidamente 'Phaṭ!' e 'Phaṭ!' Interrompe imediatamente o apego à experiência e ao pensamento. Deves manter o fluxo de uma consciência inexprimível e transparentemente clara não diferenciando entre meditação e pós-meditação. Faças o que fizeres, estejas sentado ou em movimento, contanto que não percas a consciência atenta que sustenta a natureza essencial, não haverá separação entre sessões e intervalos. Deverás permanecer sempre neste estado indivisível. Mas, para aqueles de menor capacidade que poderão ceder ao jugo do pensamento conceptual, até que a estabilidade seja alcançada, é vital meditar, longe de todas as distracções e ocupações, praticando em sessões de meditação adequadas e fazendo intervalos sempre que não se mantiver o estado natural. Relativamente à consciência pós-meditativa, deverás abandonar qualquer foco e permanecer numa claridade desimpedida. A cada momento, em qualquer situação, reside no fluir do que é apenas dharmakāya — isto é, permanecendo na visão do dharmakāya e desprovido de qualquer outra actividade mental, sem suprimir nem cultivar pensamentos. Compreende com absoluta convicção que nada há além disto — sabedoria genuína além da elaboração, a união de serenidade e insight. O segundo ponto vital é: compreender uma coisa, e uma coisa apenas.

3. Confiança directamente na libertação dos pensamentos emergentes

Então, sem confiança no método de libertação, serás incapaz de fazer frente às situações de apego e aversão, e por isso o texto diz: Nesta altura, sejam de apego ou aversão, felicidade ou tristeza -- todos os pensamentos momentâneos, cada um deles, independentemente do que possa surgir, seja vulgar ou subtil, não te separes da consciência vigilante e não permitas que os pensamentos se transformem numa corrente subtil. Havendo reconhecimento, deves permitir que eles sejam libertados assim que surgem e deves manter o reconhecimento, e desse modo, como sucede com o que é escrito na água, não deixam qualquer vestígio. Ao olhares directamente para tua própria natureza essencial, reconhecerás o dharmakāya no qual eles são libertados, e os pensamentos desaparecerão naturalmente sem deixar marca. E assim como a escrita se dissipa na água, emergência e libertação tornam-se naturais e contínuos. E o que quer que surja na forma de pensamentos baseados nos cinco venenos é, desde que permitamos que a auto-libertação aconteça, alimento para a vacuidade despida de rigpa. Tudo o que se agitar na mente, desde que a libertação na emergência [de pensamentos] se mantenha desobstruída, é o poder interno do rei dharmakāya. Pensamentos e estados mentais são purificados em dharmakāya, não deixando qualquer vestígio, e intrinsecamente puros. Que alegria! As coisas podem surgir como anteriormente, mas, como para os yogis os pensamentos são libertados ao emergirem, a diferença está na forma como elas são libertadas: essa é a questão-chave. No início, os pensamentos emergentes são libertados ao serem reconhecidos, como o encontrar de um velho amigo; no meio, os pensamentos são libertados por si mesmos, como uma cobra desenrolando os seus próprios nós; no fim, os pensamentos emergentes são libertados sem causar benefício ou dano, como um ladrão invadindo uma casa vazia. Esta é a chave-mestra: o modo como a libertação ocorre. Sem isto, que é o caminho que revela directamente a auto-libertação, a meditação não é senão o caminho da ilusão. Com isto, este ponto vital, existe a não-meditação, o que significa que não há um cultivo deliberado fabricado pela mente e existe apenas o estado de dharmakāya, sem aplicação deliberada ou esforço. O terceiro ponto vital é: confiança directamente na libertação dos pensamentos emergentes.

4. Colofão

Para a visão que possui os três pontos vitais mencionados acima -- apresentando directamente a face de rigpa em si mesma, optando por uma coisa e uma coisa apenas, e confiança directamente na libertação dos pensamentos emergentes -- meditação, a união de sabedoria e amor, porque ao encontrarmos a nossa face natural de consciência primordialmente pura, uma sabedoria nascida da meditação e um amor compassivo pelos seres surgem espontaneamente. Esta experiência é acompanhada pela acção comum a todos os bodhisattvas, que pode ser resumida no caminho das seis perfeições transcendentes. Estas desenvolvem-se como o sol e respectivos raios. Relativamente a esta visão, meditação e acção, fossem todos os budas do passado, presente e futuro conferir, nenhuma instrução encontrariam eles superior a esta, o ponto-crucial do caminho da Essência do Coração, o pináculo de todos os veículos. Esta profunda e sucinta instrução foi trazida como um tesouro das profundezas da percepção transcendente, as palavras imaculadas dos sublimes gurus da linhagem, pelo tertön do dharmakāya, o poder interno de rigpa. Não é em nada igual aos tesouros vulgares deste mundo, que são meramente feitos de terra e pedra, pois este ensinamento das três afirmações que atingem o ponto vital é o profundo testamento final de Garab Dorje passado ao ācārya Mañjuśrīmitra. É a essência da mente de sabedoria das três transmissões: a transmissão directa da mente dos vitoriosos, a transmissão por sinais dos vidyādharas e a transmissão sussurrada dos seres comuns. É confiada aos meus discípulos do coração, selada para ser secreta — destinada apenas a discípulos que a pratiquem, mas inapropriada para partilhar com aqueles que não levarão as instruções a peito. É profunda em significado, as palavras do meu coração. São as palavras do meu coração, o ponto-chave crucial e a essência dos seis milhões e quatrocentos mil tantras da Grande Perfeição. Este ponto crucial, uma vez que inclui tudo isto sem qualquer falha: nunca o menosprezes, consideres trivial nem o trates com ambivalência. Nunca deixes esta instrução afastar-se de ti ou ser desperdiçada. Este conselho é dado repetidamente.

Este é o ensinamento especial do rei sábio e glorioso. Por outras palavras, esta é uma instrução especialmente sublime contendo o néctar da sabedoria de Dza Patrul Jigme Chökyi Wangpo.

Estas anotações foram adicionadas por Kyabje Choktrul Pema Kunzang Rangdrol Sherab Gyaltsen Palzangpo no eremitério de Paldro Gyatsa Drakkar.

| Traduzido do inglês (Adam Pearcey 2019 com base no texto raiz traduzido por Rigpa Translations, 2008) por André A. Pais.


Versão: 1.1-20220217

Pema Kunzang Rangdrol

Garab Dorje

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